arquitetura como instrumento de reconexão interior.
Entre música, literatura, arte, raízes, chá e memória afetiva, “A Poética do Ritmo” propõe um espaço onde desacelerar deixa de ser pausa e passa a ser consciência.
uma narrativa sensorial
O projeto nasce da idéia de alinhamento entre mente e coração como estado de conexão interior, clareza e força.
É nesse ponto de convergência que surgem as escolhas mais autênticas, tanto na vida, quanto na arquitetura
O convite ao olhar interior
Na música,
uma seleção de obras que sempre estiveram presentes
- da bossa nova a concertos clássicos.
o espelho herdado
de sua família, adquirido
na tradicional L’Atelier — fundada por Jorge Zalzupin em 1959 — , a acompanha desde a infância.
“É o espelho em que me vejo desde que nasci”
Além de títulos vindos garimpados em sebos, a biblioteca reúne livros reais já lidos pela arquiteta.
No ritual do chá, dentro da vida pessoal de Isabella, representa pausa, acolhimento e até cura.
“Quero expressar como o resgate pessoal das nossas ancestralidades e os hábitos de outrora, como ouvir uma música com o corpo e a atenção plena, além de ter nas mãos um livro físico, entregam muito do que buscamos, mas que nos esquecemos na conjuntura dos tempos de hoje”,
simbolismos sensoriais
“Quase todos temos em casa um objeto herdado, capaz de atravessar gerações e preservar boas memórias”
a poética do ritmo
casacor 2026
“Ao tocar os sentimentos,
meu intuito é possibilitar
que cada pessoa pode olhar
para dentro, perceber o próprio ritmo e refletir sobre aquilo que realmente importa”
-
Isabella Nalon transforma arquitetura em experiência sensorial no ambiente A Poética do Ritmo, na CASACOR SP 2026
Com projeto inspirado no alinhamento entre mente e coração, o projeto investiga o ritmo do morar contemporâneo por meio da música, da literatura e das artes.
‘A Poética do Ritmo’, da arquiteta Isabella Nalon, evoca os encantos das artes, música, literatura e design como os elementos que acessam os sentimentos dos visitantes da CASACOR São Paulo 2026 através de uma arquitetura sensível e delicada. Em destaque na mesa de centro, uma seleção de objetos de marchetaria e partituras musicais | Foto: JP Image
Em uma época marcada pelo excesso de estímulos e pela aceleração permanente da vida contemporânea, a arquiteta Isabella Nalon, que participa, pela segunda vez, da CASACOR São Paulo 2026, apresenta um ambiente que investiga a arquitetura como instrumento de reconexão interior.
Em “A Poética do Ritmo”, música, literatura, arte, memória afetiva e materialidade brasileira constroem uma narrativa sensorial que propõe o morar contemporâneo não como fuga do cotidiano, mas como a possibilidade de reorganizar o ritmo interno através da contemplação das múltiplas expressões artísticas. Na visão da arquiteta é preciso que observemos a beleza do viver e realizar aquilo que, verdadeiramente, nos eleva. Cada detalhe da narrativa espacial idealizada pela experiente profissional propõe conduzir o visitante por meio da percepção, sentidos e o olhar. “Ao tocar os sentimentos, meu intuito é possibilitar que cada pessoa possa olhar para dentro, perceber o próprio ritmo e refletir sobre aquilo que realmente importa”, preconiza.
Inspirado no tema da edição, “Mente e Coração”, o ambiente, uma Ilha de Conforto de 45m2, transforma um espaço de passagem em um lugar de permanência, convivência e experiência, compondo um retrato sensível de quem escolhe viver cercado de cultura e, claro, muita brasilidade.
“O projeto nasceu da ideia de que o alinhamento entre mente e coração gera um estado de clareza e força. É nesse ponto de convergência que surgem as escolhas mais autênticas, tanto na vida quanto na arquitetura”, explica Isabella.
Em cada espaço da ‘A Poética do Ritmo’, o visitante é instigado a ficar não por uma imposição, mas por uma vontade legítima e inerente da alma. E essa atração também acontece pela maneira como a arquiteta Isabella Nalon desenhou a passagem dos visitantes através de um layout bem resolvido para entregar uma circulação fluída. Em evidência na imagem, a expressão do piso de ladrilho hidráulico que demarca a divisão entre a sala e a biblioteca e dita um ritmo próximo à de uma varanda | Foto: JP Image
Sem divisórias rígidas, o projeto se organiza em três setores fluidos e complementares, criando a sensação de percorrer uma casa viva e conectada aos sentidos. Cada setor possui sua atmosfera própria, mas todos permanecem conectados visual e emocionalmente.
Nesse paralelo, ela também exalta a brasilidade e a forma como passado e presente se comunicam. “Quero expressar como o resgate pessoal das nossas ancestralidades e os hábitos de outrora, como ouvir uma música com o corpo e a atenção plena, além de ter nas mãos um livro físico, entregam muito do que buscamos, mas que nos esquecemos na conjuntura dos tempos de hoje”, argumenta.
Para a arquiteta, a CASACOR São Paulo representa, justamente, a matéria — o plano físico onde a arquitetura possibilita esse movimento simbólico do alinhamento entre razão e emoção.
No percurso do ambiente, uma fragrância exclusiva foi desenvolvida especialmente para reforçar essa atmosfera sensorial. Com notas de fundo de chá branco, combinadas com uma seleção de flores, o aroma acompanha o visitante pela incursão pessoal que ele realiza.
A arquitetura como expressão dos sentimentos
No teto da biblioteca, as vigas de madeira se encontram com a marcenaria das estantes. Levada pelo pulsar a vida, a arquiteta Isabella Nalon desvela a arquitetura como sua ferramenta para construir um ambiente imbuído de sentimentos | Foto: JP Image
A experiência começa na entrada, quando a profissional começa a revelar suas primeiras impressões sobre A Poética do Ritmo. Por ser um ambiente de passagem, ela concebeu um projeto de arquitetura em que o visitante circula de maneira fluida e é instigado a observar cada pormenor exposto. “ ‘nada é por um acaso’, afirmo que tudo tem uma intenção e um significado”, verbaliza.
O amplo pé-direito, de quatros metros, também faz parte da narrativa do projeto. Logo na entrada, um pórtico de madeira (marcenaria Todeschini) cria uma atmosfera convidativa e acolhedora. Na sala de música, o forro de gesso reduz levemente a altura e cria uma sensação intimista. Já na biblioteca, as vigas de madeira desenham o teto em uma composição ritmada, remetendo aos telhados das varandas das antigas casas brasileiras. O elemento conduz o olhar verticalmente e reforça a sensação de profundidade e permanência.
A paleta cromática também participa ativamente da construção emocional do espaço.
O ritmo, tão presente em todo espaço, é compreendido pelas distinções arquitetônicas que, a partir da biblioteca o visitante distingue na sala. “Desde a ‘caixa’ monocromática da sala, formada pelas paredes e o teto na mesma cor (Café Místico da Coral) e as vigas instaladas no teto da biblioteca, com sua repetição cadenciada e que entregam a ideia de uma varanda”, enumera Isabella.
A tonalidade Chapada Diamantina foi a escolhida para a bibliotexa, mais profunda e intensa, introduz dramaticidade e profundidade visual ao ambiente.
O projeto luminotécnico foi implementado por meio de múltiplas camadas que entregam uma atmosfera envolvente. Para essa flexibilidade de uso e a criação de setores distintos, estão presentes abajures de mesa, perfeita para leitura e aconchego nos pontos de permanência; luminárias de piso que, além de elementos decorativos são provedoras de luz ambiente difusa no período noturno; as arandelas que valorizam as superfícies, criam efeitos e uma cenografia dramatúrgica e, por fim, a linha técnica que acrescenta interesse visual ao espaço.
O convite ao olhar interior
Ao adentrar A Poética do Ritmo, o visitante já é impactado com os primeiros elementos que conduziram, com sensibilidade, a alma de Isabella em seu desenvolvimento. A madeira, que aquece todo o projeto, é representada pela marcenaria da Todeschini e os móveis soltos da Bella Home.
Suavemente iluminado pelo abajur, o buffet com portas no acabamento muxarabi abre espaço para a simbologia do espelho que a arquiteta herdou de sua família. Da década de 1960 e adquirido na tradicional L’Atelier — loja frequentada por importantes designers brasileiros das décadas de 1960 e 1970 —, o objeto é emoldurado pela nobreza do jacarandá e a acompanha desde a infância. “É o espelho em que me vejo desde que nasci”, relembra.
A peça funciona como símbolo do olhar interior que Isabella propõe ao longo de todo o ambiente. Com maestria, na parede ao lado ela sintetizou a narrativa ao correlacionar três elementos que entregam a sua interpretação do ambiente: o quadro de flores, da loja MAU, entregando seu apreço pela arte e a natureza, que sempre se fizeram presentes em sua vida, o trompete, que entrega a musicalidade, e o coração, para onde tudo emerge e torna-se a fonte da vida.
O ritual do analógico
A sala de música é carregada de simbolismos sensoriais que a profissional revela pouco a pouco. Aqui, o ritmo desacelera e o analógico ganha protagonismo não como nostalgia, mas como escolha consciente de permanência.
Como uma uma caixa de música, a marcenaria projetada pelo escritório e executada pela Todeschini, pontua o protagonismo do ritual que o toca-discos inseriu na vida dos vinilóficos. Na era do digital, o equipamento não apenas reproduz o disco. Para a arquiteta Isabella Nalon, a arquitetura do ambiente valoriza todas as pequenas etapas que o apreciador vive até ouvir as primeiras notas. |
Assim como a embalagem de um vinil eterniza o trabalho entregue pelo artista, a marcenaria valoriza esse momento. No móvel de madeira com as extremidades arredondadas estão as preciosidades que motivam a sala de música. “Sem dúvidas, o equipamento e os discos são as principais figuras dessa ambientação”, sustenta a arquiteta, pontuando o nicho interno onde está a seleção de álbuns que escolheu em parceria com a Maison de La Musique.
Sobre o acervo musical, a arquiteta Isabella Nalon conta ter feito uma seleção de obras que sempre estiveram presentes em sua vida, referindo-se a artistas da música popular brasileira, bossa nova e os concertos clássicos
A concepção da sala de música também se destaca pelo revestimento executado com painel Tetris, um ripado que une textura e um jogo visual sutil na cor wallnut – o tom clássico e sofisticado da nogueira.
Para a arquiteta Isabella Nalon, incluir o toca-discos e os vinis traz ao ambiente a presença e a experiência de selecionar um disco, retirar o LP da capa, posicionar a agulha e acompanhar o álbum do início ao fim. Como um cerimonial, essas etapas têm o poder de transformar a escuta em experiência tátil e emocional. Além do toca discos, o mobiliário também acomoda amplificador e caixas de som, da francesa Elipson, considerada uma das marcas de áudio de maior qualidade do mercado internacional. “Embora o ambiente retrate essa espécie de nostalgia, investimos na tecnologia, pois é fundamental apreciar com uma alta qualidade do som”, pondera Isabella.
Ainda no ritmo da música, o violino exposto é uma homenagem da arquiteta Isabella Nalon ao seu avô, imigrante siciliano que veio para o Brasil no pós-guerra. Ela se recorda que, mesmo com suas atividades profissionais, ele nunca deixou de ser violinista, sua grande paixão musical, que também a influenciou| Foto: JP Image
Na parede à frente do estrutural musical, obras do artista visual Matheus Guilherme aparecem organizadas em diferentes formatos — 10x10 cm, 15x15 cm, 20x20 cm e 70x30 cm — formando uma composição inspirada em partituras musicais, em que cada elemento possui peso, pausa e função visual. As menores obras surgem quase como pequenas joias distribuídas pela parede.
O sofá de veludo verde provoca um contraste interessante com as paredes em rose terroso da sala de música, tonalidade escolhida por Isabella para mostrar que o neutro contemporâneo vai além do branco, bege ou cinza. Com o propósito de entregar profundidade e adicionar dramaticidade, na biblioteca ela optou por uma cor mais forte – o Chapada Diamantina, da Coral. O resultado entrega uma atmosfera acolhedora e emocional, reforçada ainda pelo tapete da Via Star, produzido com fios PET reciclados.
Ao fundo, a luminária Cantante, da Bertolucci, e assinada pela designer brasileira Claudia Moreira Salles, reforça a relação entre música, iluminação e contemplação. Vasos de barro produzidos artesanalmente por diferentes artistas ajudam a ampliar a mistura entre referências italianas, brasileiras e afetivas dispostas por todo ambiente.
Entre raízes, livros e contemplação
Na biblioteca, o compasso desacelera ainda mais e é onde a experiência ressoa e se completa na memória do visitante. Com o pé-direito de 4 m, ‘A Poética do Ritmo’ explora a verticalidade como metáfora de elevação e consciência. As estantes conduzem o olhar para cima, em direção às vigas de madeira do teto que, por sua vez, denotam um movimento visual ascendente que simboliza a conexão entre mente e coração.
No percurso do ambiente da arquiteta Isabella Nalon, a arte se faz presente com obras do artista visual Matheus Guilherme, que se destacam acima do sofá, e com a malha composta de vidro e ligas de metal, executada pelo artista Alex Roca e instalada no painel de madeira da Todeschini.
A produção das estantes, realizada pela arquiteta Isabella Nalon em parceria com Paulo Carvalho, mescla uma seleção de obras literárias, vegetação e objetos afetivos que promovem uma junção entre um jardim e uma biblioteca. Na posição central e acima dos carrinhos de chá está a pintura assinada pela artista Hanna Dank
Além de títulos garimpados em sebos, a biblioteca reúne livros reais já lidos pela arquiteta, reforçando a proposta de um ambiente funcional e possível de ser vivido no cotidiano. A arquiteta faz questão de enfatizar que nada ali é cenográfico. “As pessoas podem sentar, usufruir e viver o espaço”, afirma.
O ladrilho hidráulico, técnica tradicional de origem europeia que ganhou forte identidade no Brasil, aparece como representação do artesanal e da imperfeição. Para a arquiteta Isabella Nalon, o fato das peças serem frutos de uma secagem natural, sem padronização industrial, faz com que cada peça apresente pequenas variações de tonalidade e textura. Essa identidade é única e entrega a mágica do revestimento que ela escolheu para representar a brasilidade e a estética de um tapete na biblioteca.
Um dos protagonistas do projeto é o piso de ladrilho hidráulico artesanal desenvolvido pela Ladrilar. A paginação desenvolvida pelo escritório de Isabella Nalon mistura diferentes formatos, tamanhos e cores, além de uma peça em formato de cruzeta, criação da influenciadora Nathália Candelária.
Na alegação da Isabella, o material assumiu um papel determinante por alguns motivos, a começar pela distinta divisão entre a biblioteca e a sala de música e os ares de varanda. “O ritmo personificado em todo ambiente se estabelece aqui com o desenho exclusivo que desenvolvemos por meio da junção das peças hidráulicas”, especifica.
Em tons de areia, rose e o verde, a aplicação do ladrilho hidráulico compõe um grande tapete que remete aos jardins de inverno e resgata referências afetivas das varandas das casas brasileiras.
A paixão da arquiteta pelo material se estende pela valorização do feito à mão e a sua produção sustentável, o que dialoga diretamente com o conceito do ambiente, que propõe uma reconexão com processos mais humanos, sensoriais e permanentes.
Muito além de uma bebida
A arquiteta Isabella Nalon remonta a ancestralidade milenar do consumo do chá, uma alquimia natural que entrega sabores e bem-estar.
A contemplação também aparece no ritual do chá, hábito que faz parte da rotina da arquiteta e se sobressai na composição do espaço. Dentro da vida pessoal de Isabella, o chá representa pausa, acolhimento e até cura.
Dois carrinhos de chá, também da Bella Home, organizam essa experiência. Em um deles, louças, bules e peças garimpadas remetem às referências familiares e à influência europeia presente em sua formação. A coleção de bules da loja Teo resgata memórias da infância da arquiteta, que cresceu vendo a mãe utilizar objetos semelhantes em casa.
No outro carrinho, potes de vidro armazenam nibs e cascas de cacau orgânicas e biodinâmicas, trazidas da fazenda Cruzeiro do Sul, localizada na Bahia. Eles são utilizados no preparo na infusão do chá considerado uma iguaria. “É rico em antioxidantes e conhecido como o chá da felicidade por conta das suas propriedades”, pontua. Ainda de acordo com Isabella, o cacau representa também a brasilidade por sua longeva história de cultivo em nosso país.
A mesa central recebe tampo em quartzito brasileiro Vitória Régia e é acompanhada por pufes com o mesmo tecido do barrado utilizado nas cortinas desenvolvidas pela G2 Home. O recurso reforça a unidade visual do ambiente e amplia a sensação de varanda e jardim de inverno criada pela arquiteta.
Entre os elementos naturais presentes no ambiente da arquiteta Isabella Nalon, destaque para a Pachyra aquatica, espécie brasileira típica das regiões Norte e Nordeste conhecida como “árvore do dinheiro”.
Localizada à esquerda da biblioteca, a planta Pachyra aquatica pode atingir alturas acima de 10m e, além de flores, produz frutos semelhantes ao cacau, ricos em propriedades antioxidantes. Na execução do projeto luminotécnico, Isabella incluiu luz artificial que auxilia a fotossíntese da planta que precisa de claridade abundante para o seu desenvolvimento saudável. Para tanto, a conversão da energia luminosa em química precisa atingir a radiação fotossinteticamente ativa.
Próximo à planta, uma cadeira de antiquário reforça a presença da memória afetiva no projeto. “Quase todos temos em casa um objeto herdado, capaz de atravessar gerações e preservar boas memórias”, comenta Isabella.
A Poética do Ritmo, da arquiteta Isabella Nalon, evoca e paixão da leitura como cerne. Assim, o cantinho da leitura se fez especial com a poltrona e mais um exemplar da luminária Cantante.
No canto da leitura, uma poltrona divide espaço com mais uma luminária Cantante e duas obras relacionadas com a temática das raízes. A contextualização de Isabella reforça a ideia de que a casa contemporânea pode ir além do abrigo físico para se tornar espaço de permanência, introspecção e representação pessoal.
Ao final do percurso, Isabella Nalon transforma a arquitetura em um exercício de presença, conexão e movmento interior. Entre música, literatura, arte, raízes, chá e memória afetiva, “A Poética do Ritmo” propõe um espaço onde desacelerar deixa de ser pausa e passa a ser consciência.